08 abril 2010

Diário de uma depressão


4 de Abril de 2010

Sabem aquelas noites em que não se consegue dormir porque a cabeça dá voltas e voltas? Tantas voltas, que acabamos por desistir, sair da cama, e ir para o sofá ouvir música? É uma dessas noites.
02:45

5 de Abril de 2010

A depressão e a solidão perseguem-me há cerca de um ano. Continuo a viver dia após dia. Sinto-me contente por isso, apesar de me sentir sozinha enquanto as outras pessoas seguem estranhamente um rumo diferente. Hoje parei, sentei-me no chão , pus-me a vêr o céu completamente azul e dei por mim demasiado pensativa, depois esses meus pensamentos transformam-se em cisma e é nessa altura que elas me apanham.


Caem sobre mim silenciosas e ameaçadoras como detectives e cercam-me - a depreesão pela esquerda e a solidão pela direita. Não precisam de me mostrar provas, conheço-as muito bem. Há um ano que bricamos ao jogo do gato e do rato. Embora confesse que fiquei surpreendida por encontrá-las naquele lugar, naquele momento. Elas não pertencem ali.

No meu interior, digo-lhes:

- Como é que me encontraram aqui? Quem lhes disse que eu estava aqui?

A depressão, sempre mais cínica, responde:

-O quê? Não estás contente por nos ver?

-Vão-se embora! – grito.

A solidão, mais sensível, diz:

-Desculpa, mas vou ter de te seguir enquanto for mais forte que tu. É essa a minha tarefa.

-Preferia mesmo que não o fizesses – digo-lhe, mas ela encolhe os ombros quase como se pedisse desculpa e limita-se a aproximar-se ainda mais.

A seguir, esvaziam-me os bolsos de qualquer alegria que lá tivesse. A depressão chega mesmo ao ponto de pôr em causa a minha identidade, mas ela faz sempre isso. Depois, a solidão começa a interrogar-me, o que me apavora porque se prolonga sempre horas ou mesmo dias a fio. É educada mas inflexível e acaba sempre por me apanhar em falso. Pergunta-me se tenho conhecimento de alguma razão para estar feliz. Pergunta-me porque estou sozinha ali. Pergunta (embora já o tenha perguntado centenas de vezes ) porque motivo não sou capaz de manter um relacionamento, porque razão estraguei aquilo que me fazia feliz, porque estraguei as coisas com ele e porque estraguei as coisas com as pessoas que passaram pela minha vida. Pergunta-me onde estava no momento em que podia ter escolhido não cometer o maior erro da minha vida e porque razão as coisas se tinham tornado tão dificeis desde então. Pergunta porque não me consigo organizar e porque razão não sou capaz de me levantar e ter aquela conversa necessária para todos. Pergunta-me por que razão exactamente penso que mereço estar livre dela e ser feliz genuinamente quando fui eu própria que dei cabo da minha vida. Pergunta-me porque penso que fugir aos problemas como uma criança pode fazer-me feliz. Pergunta onde penso que irei acabar quando for mais velha e continuar a viver desta maneira.

Regresso a casa, esperando afastá-las, mas aquelas duas estúpidas continuam a seguir-me. Agora sim, a depressão agarra-me firmemente o ombro e a solidão assedia-me com as suas perguntas. Nem sequer me dou ao trabalho de jantar, não quero que me vigiem mais uma vez. Também não quero deixá-las subir as escadas até ao meu quarto, mas conheço a depressão e se que não há como impedi-la de ir se assim o decidir.

-Não é justo virem aqui – digo á depressão. – Já saldei as contas convosco. Cumpri a minha pena durante um ano, já chega por favor.

Mas ela limita-se a brindar-me com aquele sorriso sombrio e instala-se na minha cadeira, põe os pés em cima da mesa e acende um cigarro, enchendo tudo de fumo. A solidão observa e suspira, depois deita-se na minha cama e tapa-se com os cobertores, totalmente vestida. Já sei que vou ter que dormir com ela outra vez esta noite.

6 de Abril de 2010

Pensei em parar de tomar a medicação. Parecia-me uma loucura estar a tomar antidepressivos com a minha idade. Como é que eu podia ficar deprimida com um dia maravilhoso lá fora e uma vida pela frente?


Em primeiro lugar, nunca queria tomar medicamentos. Tinha luado por isso durante tanto tempo, sobretudo devido a uma longa lista de objecções pessoais ( por exemplo, ainda não se conhece os efeitos a longo prazo destes medicamentos no cérebro humano ). Ainda assim, durante este último ano, não havia dúvida de que estava com problemas graves e que estes não iam passar de um momento para o outro. Enquanto o meu interior de dissolvia lentamente e o meu drama com _evoluía, acabava por ter todos os sintomas de uma depressão grave – perda de sono, do apetite, choro descontrolado, dores musculares e de estômago crónicas, alienação e desespero, problemas em concentrar-me na escola ou até mesmo nas tarefas mais básicas (estava a privar-me de mesmo tudo), incapacidade até de me zangar pelo facto de, mais tarde, estar a engordar e o meu corpo estar a perder as formas…e esta lista prosseguia indefinidamente.

Quando nos perdemos em bosques sombrios como estes, por vezes levamos algum tempo a perceber que nos perdemos. Ficamos convencidos de que nos deviámos apenas alguns passos da nossa rota e que a qualquer momento voltaremos a encontrar o caminho certo.

Depois, a noite cai dia após dia e continuamos sem fazer ideia do sítio onde estamos. É nessa altura que admitimos ter-nos desviado tanto do caminho que já nem sabemos onde nasce o Sol.

Aceitei esta depressão como se fosse o combate da minha adolescência e é evidente que o é. Comecei a estudar a minha própria experiência, tentanto identificar as suas causas. Qual a origem de todo este desespero? Seria psicológica? Seria apenas temporal, uma má altura da minha vida? Seria genética? Seria cultural? Seria astrológica? Seria artística? Seria evolucionária? Seria cármica? Seria hormonal? Dietética? Filosófica? Sazonal? Ambiental? Teria um desiquilibrio quimico? Ou precisaria apenas de ficar na cama?

São tantos os factores que constituem um único ser humano. Tantas as influencias que recebemos das nossas mentes, dos nossos corpos, das nossas almas, das nossas familias. Acabei por achar que a minha depressão era provavelmente uma conjugação inconstante de todos esses factores e provavelmente também incluia algumas coisas que não posso agora nomear.

Assim, avancei para o combate em todas as frentes. Comprei todos os livros de auto-ajuda com titulos embaraçosos que consegui encontrar. Comecei a ter ajuda profissional com uma terapeuta que era tão simpática quanto perspicaz. Até rezei. Deixei de comer carne (por pouco tempo). Bebi chás de ervas suficientes para alegrar um russo no inverno mais rigoroso, sem efeitos que se vissem. Fiz exercicio. Expus-me ás artes bem-dispostas e protegi-me cuidadosamente dos filmes, livros e canções tristes (se por acaso alguém mencionasse certos nomes na mesma frase, tinha de sair dali).

Esforcei-me tanto por combater os intermináveis soluços…Uma noite, lembro-me de perguntar a mim mesma, enquanto estava enroscada no mesmo velho canto no mesmo velho sofá, uma vez mais desfeita desfeita em lágrimas devido á mesma velha repetição de pensamentos dolorosos: “Haverá alguma coisa nesta cena que possas mudar, Catarina?” E a única coisa que me ocorreu foi levantar-me, ainda a soluçar, e escrevi. Apenas para provar que, embora não pudesse para de chorar ou alterar o meu triste diálogo interior, ainda não estava totalmente descontrolada: pelo menos, conseguia chorar histericamente pelas palavras. Bom, já é um começo…

Atravessei a rua para caminhar ao Sol. Encostei-me á minha rede de apoio, acarinhando a minha familia e cultivando as amizades mais importantes. E quando as revistas femininas mais metediças me diziam que a minha auto-estima não estava a ajudar a curar a depressão, fazia um novo penteado, comprava maquilhagem mais extravagante e roupa. (Quando algum amigo me cumprimentava pelo meu ‘novo look’, tudo o que conseguia dizer, de forma algo sinistra, era: “Operação auto-estima – dia do engate”.)

Após cerca de um ano a tentar combater esta mágoa, a última coisa que tentei foi a medicação. Se me é permitido dar a minha opinião, acho que deverá ser sempre a última coisa a tentar. Para mim, a decisão por essa via aconteceu depois de uma noite em que me sentei no chão do meu quarto durante muitas horas com uma faca. Nessa noite, ganhei a discussão, mas foi por pouco. Tinha outras ideias igualmente boas na altura, por exemplo, achava que saltar de uma varanda ou entrar no mar e desaparecer poderia acabar com o meu sofrimento. Mas houve alguma coisa no facto de ter passado uma noite com uma faca na não que teve o mesmo efeito.

Na manhã seguinte, disse á minha mãe e implorei-lhe que me ajudasse. Não creio que haja em toda a história da minha familia uma mulher que alguma ves tenha feito isso antes, se tenha sentado no meio da estrada desta forma e tenha dito, não consigo dar mais um passo. Preciso de alguém que me ajude. De nada teria servido a essas mulheres terem deixado de andar. Ninguém as teria ajudado nem poderia tê-lo feito. Não conseguia parar deixar de pensar nessas mulheres.

E nunca esquecerei a cara da minha mãe quando chegou a correr ao meu quarto cerca de uma hora depois do meu pedido de ajuda e me viu deitada na cama. A imagem da minha dor reflectia-se no visivel receio que ela tinha pela minha vida continua a ser uma das memórias mais assustadoras destes meses terriveis. Enrolei-me numa bola enquanto a minha mãe fazia telefonemas para encontrar um médico que recomendasse um psiquiatra que me desse consulta no dia seguinte para discutir a possibilidade de me pescrever antidepressivos. Ouvi a conversa da minha mãe com a o médico, ouvi-a a dizer: “Tenho medo que a minha filha se venha a magoar com gravidade.” Eu também tinha medo.

Quando fui ao psiquiatra, ele perguntou-me porque levara tanto tenpo a pedir ajuda – como se eu não me tivesse tentado ajudar a mim mesma durante todo este tempo. Falei-lhe das minhas objecções e reservas em relação aos anti depressivos. Pus-lhe cópias das minhas notas em cima da secretária e disse:

-Quero ser médica. Por favor, não faça nada que possa prejudicar o meu cérebro.

Ele disse:

- Se tivesse uma doença renal, não iria hesitar em tomar medicamentos para isso. Porque razão hesita em relação a esta?

Prescreveu-me vários medicamentos diferentes. Em menos de uma semana, consegui sentir um bocadinho mais de luz dentro de mim. Além disso, consegui finalmente dormir. E esta foi a grande dádiva, porque quando não se consegue dormir não se consegue sair da fosse, não há hipótese. Os comprimidos devolveram-me essas retemperados horas de sono e também fizeram com que as minhas mãos parassem de tremer, e libertaram a opressão que sentia no peito e o botão de alarme de pânico de dentro do meu coração.

Ainda assim, nunca me senti completamente á vontade a tomar estes medicamentos, embora o alívio tenha sido imediato. Idependentemente de quem me disesse que tomá-los era boa ideia e que são perfeitamente seguros, a verdade é que me sinto dividida em relação a isso. Não há dúvida que estes medicamentos fazem parte da minha ponte para o outro lado, mas quero ver-me livre deles assim que possível. Comecei a tomar a medicação no ínicio de Março, mas uma semana depois diminui significativamente a dose, não porque assim me tinham dito para fazer, mas porque tinha medo. Estes últimos meses têm sido os mais duros, os meses seguintes a um momento de loucura, os últimos meses com ele. Conseguiria eu ter suportado estes tempos sem os medicamentos, se tivesse aguentado um pouco mais? Conseguiria eu ter sobrevivido sozinha? Não sei. É isso que acontece com a vida humana – não há grupo de controlo, não há forma de alguma vez saber o que teria acontecido a qualquer um de nós se tivessem sido alteradas algumas coisas.

O que sei é que estes medicamentos fazem com que o meu tormento pareça menos catastrófico. Portanto, estou grata por isso. Mas aida me sinto profundamente reticente em relação a medicamentos que alteram o humor. Fico fascinada com o seu poder, mas preocupa-me a sua prevalência. Penso que devem ser prescritos e usados com a mior das responsabilidades assim como nunca sem o tratamento paralelo admistrado por um psicólogo. Medicar o sintoma de qualquer doença sem explorar a sua causa é uma forma tipicamente usual de pensar que alguém pode vir realmente a melhorar assim. Estes comprimidos podem ter salvo a minha vida, mas só o fizeram em conjunção com mais uns vinte esforços que eu estou a fazer em simultâneo durante este período para me recuperar, e espero nunca mais ter de voltar a tomar estes medicamentos. Embora o médico me tenha sugerido a hipótese de eu ter de recorrer muitas vezes aos antidepressivos ao longo da vida por causa de minha tendência para a melancolia. Espero que esteja enganado. Tenciono fazer tudo o que for possível para mostrar que ele estava enganado ou, pelo menos, para combater essa tendência para a melancolia com todas as armas que tiver. Não sei dizer se isso faz de mim uma teimosa com um sentimento de frutração ou uma teimosa com sentido de autopreservação.

Mas aqui estou eu.

7 de Abril de 2010

A depressão e a solidão intrometeram-se novamente na minha vida e eu tomei o meu último comprimido forte hoje. Há mais comprimidos numa gaveta, mas não os quero. Quero livrar-me deles para sempre. Mas também não quero a depressão e a solidão a rondar-me, por isso não sei o que fazer e estou a entrar em pânico, como sempre acontece quando não sei o que fazer. Portanto o que faço esta noite é agarrar no meu bloco de apontamentos privado, que tenho junto á cama para inspirações de desabafos de emergência. Abro-o e procuro a primeira página em branco. Escrevo: Preciso da tua ajuda.


Depois, fico á espera. Após algum tempo, escrevo a resposta que queria que ele me dissesse: Estou aqui. O que posso fazer por ti?

E aqui recomeça a minha conversa mais estranha e mais secreta. É aqui, neste bloco de apontamentos privado, que converso com ele, ou pelo menos, converso com a pessoa que conheci e que me fazia feliz. Converso com a mesma voz que me transmitia segurança quando, por entre lágrimas, pedi pela primeira vez uma decisão da parte dele e quando algo (ou alguém) me disse: Desiste disto, é uma luta perdida, Catarina. Nos dias seguintes, voltei a encontrar a sua voz (apenas a voz) em momentos de aflição e aprendi que a melhor forma de chegar até ela era pelo meio da escrita. Fiquei surpreendida por descobrir que quase sempre consigo aceder a ela, independentemente do meu grau de angústia. Mesmo durante o pior dos sofrimentos, aquela voz calma, compassiva e afectuosa está sempre disponível para uma conversa no papel em qualquer altura do dia ou da noite.

Decide deixar de me preocupar com o facto de que conversar com outra pessoa no papel, ouvir a sua voz, ou senti-la possa ser sintoma de alguma doença associada á depressão. Talvez a voz que alcanço seja a minha força e raiva, ou talvez seja um modo de me proteger da dura realidade, ou entao que não passe realmente de um distúrbio do meu subconsciente, causado pela soberba necessidade que eu tenho de me proteger do que dia após dia acontece em relação a esta pessoa. “A experiência ensina-nos que o mundo não é um infantário.” Estou de acordo – o mundo não é um infantário. Mas precisamente o facto de pelos menos o meu mundo ser tão desafiante é exactamente a razão para ás vezes termos de sair do meu mundo para procurar ajuda, para o procurar a ele, a sua voz, suplicando que me conforte e me abrace. No início, nem sempre tive tanta disponibilidade para revelar isto. Lembro-me de uma noite ter agarrado no meu bloco de apontamentos num assomo de fúria e mágoa e ter rabiscado uma mensagem para ele – estranhamente, para meu conforto – que ocupou uma página inteira com letras enormes: NÃO ACREDITO EM TI!

Após um momento, ainda respirando pesadamente, senti um ponto de luz a acender dentro de mim e dei por mim a escrever esta resposta calma e divertida: Então com quem é que estás a falar?

Desde então, não voltei a duvidar que o espírito dele está comigo. Por isso, esta noite, volto a recorrer á sua voz. Foi a primeira vez que o fiz desde que o vi pela última vez. Aquilo que escrevo esta noite no meu ‘diário’ é que me sinto frágil e cheia de medo. Explico que a depressão e a solidão apareceram e que estou apavorada com o facto de nunca mais se irem embora. Digo que não quero tomar mais medicamentos por tudo o que me estão a causar, mas estou assustada com a possibilidade de ter de o fazer. Tenho pavor de nunca chegar realmente a recompor a minha vida.

Como resposta, algures dentro de mim, ergue-se a sua presença, já familiar. Ele oferece-me todas as certezas que sempre desejei que me tivesse dado quanto me sentia perturbada. Foi isto que escrevi naquela página (e no fundo era isto que eu queria que ele me disesse pessoalmente): Estou aqui e amo-te. Não me importo se precisares de chorar a noite inteira, ficarei contigo. Se precisares outra vez dos medicamentos, vai em frente, toma-os – continuarei a amar-te da mesmaforma. Se não os tomares também te amarei. Não há nada que possas fazer para perderes o meu amor. Proteger-te-ei até morreres e continuarei a proteger-te depois da morte. Sou mais forte do que a depressão e mais corajoso que a solidão e nunca haverá nada que me faça desaparecer.

Esta noite, este estranho gesto – a mão que ele me deu, ofereceu-me consolo – lembra-me os bons momentos que passámos.

Adormeço segurnado o bloco de apontamentos contra o peito, aberto nesta certeza recente. De manhã, ao acordar, ainda consigo sentir o ténue vestígio do fumo da depressão, mas ela já não está ali. Levantou-se e saiu durante a noite. E sua amiga solidão foi com ela.




Sem comentários:

Enviar um comentário